Yoga na era digital, OM-line?

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Nós sabemos que a internet inaugurou um marco comunicacional na humanidade sem precedentes. Se ela mudou drasticamente as nossas relações com o mundo e pessoas, o Yoga não poderia estar de fora dessa “revolução de bytes”.

Hoje, é possível fazer aulas, online.

Receber certificação, online.

Acessar livros, textos, artigos, matérias sobre Yoga, online.

Ser iniciado(a), online.

Compartilhar fotos (abundamentemente), online.

Trocar experiências em fóruns, grupos e coletivos de discussão, online.

E por que não mencionar os aplicativos de meditação?

E mais, muito mais!

Há também uma “cena” cultural do Yoga (simbolicamente e materialmente) representada por sucos verdes, handstands acrobáticos, pulseirinhas de pedras, japa malas, props, yoga mats, yoga outfits, vegetarianismo, veganismo, velas, incensos, cristais, Budas, Ganeshas, Shivas, posts de gratidão e por aí afora.

Tudo isso compõe o “Zeitgeist” do Yoga que vivemos atualmente, e isso não quer dizer que está certo ou errado, apenas faz parte desse nosso tempo.

Desde o final do século XIX, o Yoga vem sendo ressignificado como um caminho de exercer a espiritualidade afastado de dogmatismos religiosos, além de ser associado a um conjunto de técnicas voltadas ao corpo e a mente.

Dentre as suas inovações a partir do século XX, podemos citar: a circulação do Yoga fora da Índia como um fenômeno globalizado; o surgimento de centros especializados de Yoga (os chamados ‘studios’); a proliferação de literatura voltada ao “faça Yoga por você mesmo”; a profissionalização do Yoga (cursos, certificações, associações, etc.); os estudos e pesquisas científicas sobre os efeitos das práticas de Yoga.

Não podemos esquecer de citar a importância de movimentos – iniciáticos, sociais, culturais, espiritualistas, etc, – que buscaram refúgio em filosofias indianas para idealizar uma “nova era”, e o Yoga também esteve inserido nesse contexto.

                                (Beatles com Maharishi na Índia na década de 1960. Foto: divulgação) 

Mas a internet é só mais um espaço por onde o Yoga circula, e se reinventa também.

Nessas voltas, temos por um lado, o acesso facilitado a conteúdos e pessoas (o que gera mais autonomia) e muita informação disponibilizada gratuitamente.

Por outro, há uma hiper exposição que retroalimenta a representação de si, principalmente pelas posturas (asanas).

O apelo estético delas performa uma narrativa contemporânea de Yoga baseado em atributos como: flexibilidade, exotismo e empoderamento.

Sem contar as “clonagens” yóguicas que povoam nas redes sociais. Sequências de posturas de Yoga coreografadas em movimentos e alinhamentos muito precisos ou determinados.

Ou seja, sobra muito pouco espaço para a fluidez de uma prática espontânea, criativa, aprofundada, mas principalmente íntima.

Portanto, um dos dilemas que a internet traz é a vulnerabilidade da esfera privativa das práticas. A exacerbada “necessidade” de compartilhar tudo com todos.

É curioso, o que antes era dividido e transmitido numa relação entre mestre(a) e discípulo(a), hoje, imperam exemplos em que uma multidão participa e opina em práticas alheias.

Os diários (que eram uma prática de desenvolvimento espiritual para a Guru Shree Anandamayee Ma, ver o livro “Death must die” de Ram Alexander) tornaram-se publicações abertas, em que comentários e reações (likes) são altamente desejáveis.

Aliás, isso também vicia ou gera condicionamentos, basta saber um pouco mais sobre a história dos mecanismos psicológicos deliberadamente usados na criação e desenvolvimento das redes sociais.

Um adestramento digitalizado em que as recompensas são retribuídas por cliques ou patrocínios.

Mas para quem está envolvido no universo do Yoga, a internet é uma excelente ferramenta para exercitarmos o discernimento e a autoanálise  – Patanjali continua muito atual.

É um lugar interessante para colocarmos em prática períodos de recolhimento e quietude, pois a tagarelice mental e carências afetivas também se expressam na nossa era digital através de postagens e interações virtuais compulsivas.

E não nos esqueçamos que as experiências de vida mais marcantes estão offline, fazendo um trocadilho: “nem tudo que reluz é online”.

E você? Já postou hoje?

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