Reflexões – Joana Dias

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reflexoes_joana_diasNas últimas semanas tenho lido algumas passagens que tive a necessidade de assimilar, pensar e escrever sobre o assunto. Sem crítica. Um reflexão que partilho, apenas. E é somente a minha visão.

Aquilo de que mais certo existe é que tudo muda constantemente, e isso, temos todos de aceitar.

Primeiro, em momento algum considero que para encontrarmos paz interna temos de sair do local onde residimos ou estamos. Quanto muito podemos ter a necessidade de parar as tarefas que executamos rotineiramente no dia a dia para termos mais espaço para desconstruir pensamentos, sensações e aprofundarmos essas questões.

Quando olhamos para fotografias em locais paradisíacos e nos ocorre que só naquele local ou num outro local é que seríamos mais felizes ou completos, é algo enganoso e faz parte da ilusão que vivemos.

“Precisava de desistir de tudo e ir para este sítio”, “não tenho tempo para nada”, “sinto-me a estourar”, “agora não consigo mudar”, são só algumas dos possíveis desabafos que temos para justificar o porquê de não sairmos de uma zona de conforto, seja ela em que área da vida for.

Segundo, acredito que cultivar ideias mágicas, positivas atrai o mesmo, mas não é só disso que dependem as coisas boas na nossa vida e, uma vez que não controlamos nada na nossa vida, há diversos cenários que se podem opor a essa forma de ser e estar “positiva”.

Não acredito que alguém é miserável porque o deseja ou porque a sua linha de pensamento ou as suas emoções estão concentradas nisso, acredito que há razões que a própria razão desconhece.

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Não há soluções milagrosas para nada, não existem fórmulas mágicas para a felicidade, apenas alguns rascunhos de melhores práticas, de uma melhor conduta e que por contágio poderá ajudar-nos a nós e aos outros a estarmos bem melhor com a vida do que se não o fizermos.

O yoga, a meditação são ferramentas utilizadas, não são uma solução em si. Podem organizar e direcionar a nossa conduta física e mental o que origina uma sensação de bem-estar em pouco tempo.

Mas citando Gandhi, “sê a mudança que queres ver no mundo” e isso começa bem na profundidade – os nossos valores, a nossa força de vontade em controlar impulsos, desejos e a própria ilusão que criamos em torno da nossa vida e de quem e do que está à nossa volta.

O que vejo à minha volta é muito a ideia de que “tu és o teu próprio mestre” e outro tipo de ideias deste género.

É verdade que cada um de nós tem a sua individualidade, que temos de aprender sozinhos, que temos de fazer as mudanças necessárias sozinhos, mas, o que é facto, é que a procura de referências (e aqui não falo de fanatismo, falo de alguma reverência e inspiração) podem ser um ponto chave para a concretização seja do que for.

Sugerimos: Afinal tenho sempre escolha.

Essa pessoa que é a referência deve ter vivência, dedicação, coerência e consistência, valores que estejam alinhados com o todo e, obviamente, tem de ser algo com quem criamos uma ligação de empatia instantânea. Por exemplo, no yoga, tenho referências de mestres e professores (não são muitos é um facto) que têm um enorme conhecimento que pode ser transferido para cada um de nós e são eles que procuro para me enriquecer.

E esta busca incessante pela “felicidade” não significa que não estejamos bem e felizes, mas como seres humanos, procuramos sempre mais e o que queremos hoje não é o que se ajusta amanhã. Faz parte de um processo – o da vida!

Deixem-me desde já dizer que tenho uma memória de peixe. Constantemente volto a estudar e a ler o que já faz parte do meu dia a dia, aquilo que já incuti na minha vivência porque aprendi com outros, porque li, enfim, porque a inspiração veio daquela fonte ou de outra.

Então surge aqui o código do yoga, constituído por 10 principios e nos quais tento focar a minha vida e a minha conduta (yamas e nyamas):
1. ahimsa – nenhuma forma de violência
2. satya – verdade perante nós e os outros
3. asteya – não roubar
4. brahmacharya – moderação, conduta virtuosa ou refreamento dos desejos
5. aparigraha – não possessão em geral
6. sauchan – purificação interna e externa
7. santosha – contentamento, positivismo
8. tapas – auto-superação a vários níveis
9. swadhyaya – auto-análise, auto-observação, auto-estudo
10. ishwara pranidhana – entrega ao todo, desapego do resultado da ação

Se consegui até hoje seguir todos estes princípios? Claro que não. A santidade não assenta a nenhum ser humano, somos seres humanos, no entanto descurando todos com a desculpa de “sou humano/a”, não estamos a evoluir!

E se falamos e “vendemos” uma imagem de princípios, mas depois, no nosso dia a dia praticamos o contrário, somos apenas imagem vazia ou desprovida de “sumo”! Mas porque não focarmo-nos num ou noutro de cada vez?

Confesso que de todos os princípios aquele(s) que mais me incomodam o espírito são a ausência de ahimsa ou satya. Acredito que mentir é também uma forma de violência com danos físicos ou psicológicos que muitas vezes são irreversíveis. Também considero, do que tenho vivido, que as pessoas se desculpam muito alegando auto estudo ou auto análise, mas a existência de dúvida em qualquer situação não deve incorrer em falta de paciência ou honestidade e na violência.

Podemos ter espaço para a dúvida, para esta auto-escuta do que é melhor para nós, mas sem ferir os que estão em nosso redor. Isto é, é obrigatório, na minha opinião, dar liberdade e espaço ao nosso questionamento, mas p.ex. se estivermos num relacionamento amoroso, dar também espaço ao outro para saber dessa situação e ter igualmente a mesma oportunidade de interrogação do momento presente.

Por vezes vivemos tão alheados pela imensidão de estímulos externos que nos esquecemos que o momento presente é isto exatamente que temos agora, amanhã não sabemos o que vai acontecer. Nada é certo e isso custa porque o certo que ilusoriamente criamos no cérebro são expectativas, ilusões e que originam uma falta de atenção do todo.

Aquilo de que mais certo existe é que tudo muda constantemente, e isso, temos todos de aceitar.

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