Crónicas do Vagar – Yoga, desapego e a-himsa

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EPISÓDIO 1
Desapego e a-himsa
Ou de como a Bhagavad Guita entrou pela segunda vez na minha vida.

Naquele inverno tinha alguns dias de férias e também algum cansaço, ambos acumulados. Só a ideia de procurar voo para um destino longínquo me deixava extenuada, quanto mais embarcar nele…mas apetecia-me um pouco de sol no corpo e ouvir o suave remanso do ondular do mar por perto.

Não sei onde, mas tinha lido algures acerca da existência de uma escola de yoga no norte de uma daquelas ilhas espanholas do Atlântico.

Não precisei de muito mais para reservar um voo rumo a esse destino: a escola aceitava alunos em regime não-residencial, tinha horários variados e a ilha era quase junto a Cabo Verde.

O encontro inesperado em Madrid

Ter que passar uma noite em Madrid no final de novembro para lá chegar não soou nada auspicioso, mas não tinha outra alternativa.

Uma vez chegada a Madrid, fiz tudo o que pude- e em passo bem lento!- para conseguir gastar o tempo desinteressante daquele frio stop-over: desloquei-me de transportes públicos até ao hostel de magrebinos, deambulei pelas ruas ventosas a dissecar ementas de tapas até escolher um local onde mastiguei o jantar como se estivesse fervorosamente dedicada a macrobiótica.

O regresso ao alojamento foi feito por ruas diferentes, na tentativa de encontrar alguma beleza naqueles passeios de cimento, que não tinham piadinha nenhuma.

Restava-me chegar ao hostel e enfiar-me entre os lençóis húmidos, com o meu romance nas mãos. Mas antes de ir ao quarto acabei por dar uma voltinha na sala comum, deserta e sem graça, e espreitar a estante dos livros para troca.
E eis que da estante algo que me piscava o olho, directamente do brilho da capa de papel branca e laranja.

No dia seguinte partimos juntas para a ilha. Eu ia muito feliz, lendo cada parágrafo como se fosse ouvindo o Gandhi em pessoa contando uma história antiga da sua terra natal, e ao mesmo tempo vendo retalhos de um documentário a preto e branco sobre a vida do próprio Mahatma, mas só na minha cabeça, obviamente.

Escrito em castelhano, lia-se “ el evangélico de accion desinteresada”. Era a Bhagavad Guita.
Sorri.
Tirei o livro da estante. Era uma edição de Buenos Aires, a 10ª. A Bhagavad Guita batia-ma à porta pela segunda vez na vida, para ser lida com calma.
Abri a 1ª página e reparei no autocolante azul a descolar num canto, que indicava “Santa Cruz de Tenerife, Livraria Unicórnio”, traçando  a este volume uma viagem transatlântica até desde a impressão até ao local de aquisição.

Todas as suas páginas gritavam que as levasse para longe dali, para junto do mar. Eu não poderia vacilar perante tal apelo. Subi as escadas para ir buscar o meu romance, que deixei no lúgubre hostel de Madrid, fazendo a vontade a Bhagavad Guita.

As lições no Norte da Ilha

No dia seguinte partimos juntas para a ilha. Eu ia muito feliz, lendo cada parágrafo como se fosse ouvindo o Gandhi em pessoa contando uma história antiga da sua terra natal, e ao mesmo tempo vendo retalhos de um documentário a preto e branco sobre a vida do próprio Mahatma, mas só na minha cabeça, obviamente.

Se este livro pode ter muito de devocional (Bhakti yoga) encontrei nesta versão de Gandhi o epítome do karma yoga que fez sentido para mim, que fui aprendendo em prática, melhor ou menos bem, nos dia que se seguiram.

Cheguei à ilha a meio do dia, e ia de peito feito.
Estava um dia meio nublado e algo escuro, mas eu achava que brilhava uma luz difusa e maravilhosa!

Incentivada por um encontro tão inesperado, fiquei convicta que tudo iria correr bem e tal-qual como eu imaginava. Era quase como se já tivesse tido o meu próprio encontro privado com “O Supremo”, “o Absoluto”. Sentia-me algo privilegiada com a Bhagavad Guita (há coisas que simplesmente NÃO acontecem por acaso, certo?) e por modos que isso tornava o momento especial, poderoso, ou assim o acreditava.

Eu não percebia bem os devaneios do karma, tal como não percebo hoje (já nem tento), mas que sentia um poder a irradiar dentro de mim, sentia.
Levava a Bhagavad Guita na mochila e quando quisesse podia lê-la, (como fiz amiúde), alimentando-me e guiando-me.

Avancei de autocarro para Corralejo, a norte de coisa nenhuma. Ia forte! Ia segura!
Quando lá cheguei, fim de linha, apeei-me.
Andei às voltas mil até encontrar o tal hostel numa ruela das traseiras, bati à porta convicta, mas não havia ninguém para atender ou abrir aquela porta de madeira azul com frestas.

Depois de montes de chamadas em roaming (o custo disso, alguém ainda se lembra de como era caro?), lá consegui ser atendida, e esperei uma hora e meia na soleira da porta para que a pessoa que acredito que era a Dona viesse ao meu encontro.

Despachada e sem simpatia de maior, lá me arranjou onde dormir. Era o último quarto. Disse que sítio dispunha de 2 cozinhas e 1 terraço comuns, para além da sala.

Mas não achou relevante dizer-me que, à altura, eu era o único ser do género feminino a habitar aquele surf hostel, algo que sucedeu durante muitos e muitos e muitos dias consecutivos. Fiquei, e descobri esse e outros pormenores relevantes por mim própria.

Na Bhagavad Guita de acordo com Gandhi, diz-se que a acção desinteressada do Karma yoga e o desapego andam muito de mãos dadas. Nesses dias pude mesmo confirmá-lo.
Às páginas tantas, são praticamente a mesma coisa, como que se misturam um bocado.
Desapeguei-me de uma série de conceitos e princípios que me mantinham amarrada a noções que não servem de grande coisa. Ou de rigorosamente nadaaaaa.

A vida coloca-nos muitas oportunidades de praticar uma e outra coisa: desapego e acção desinteressada, de várias formas.

Gostamos muito de pensar que os praticamos, e de alguns modos em particular. Muitas vezes vejo-nos, mulheres, praticar o desapego de forma singular, mas um pouco repetitiva.

Exemplo: Quando nos roupeiros já não nos cabe mais uma T-shirt nova ou na sapateira mais um tamanquinho da moda, somos as primeiras a abrir mão e praticar o ato bonito do desapego, dando o que já não nos serve e libertando um pouco de espaço.

Abrimos então Espaço para o novo.

Calha bem a todos. O Gandhi não tinha isso, ou só isso em vista.

Dentro da Bhagavad Guita, Gandhi fala em mais algumas coisas interessantes: verdade e não violência (a-himsa).

Ele pode não ter sido um grande estudioso de línguas, e por isso não traduzir a partir do espírito do sânscrito, mas tratou de oferecer uma interpretação da doutrina da Bhagavad Guita tal como a entendeu para a sua própria vida, de uma forma prática.

Depois de me instalar no hostel, deserto àquela hora do dia, saí de imediato em busca da tal escola de yoga. Nada. Infrutífera busca.

Aos poucos começava a sentir que as cosias não estavam a correr tão bem assim. Uma certa dúvida começava a instalar-se no sofá da minha salinha interior:
Já tinha estado quase 2 horas abandonada à porta de um hostel, após viajar de avião desde Madrid e depois de bus até ali.

Vagueei pelas ruas semi-desertas e não havia sinais de escola de yoga,
Fazia um vendaval danado que espalhava areia em todas as direcções, mais parecia uma tempestade do deserto, (mas sem calor),
– Escurecia e os candeeiros da rua emanavam uma luz amarela desmaiada,
O net café do Sr. Indiano da esquina estava em baixo, sem rede devido ao vendaval, não dava para procura nada na net.

De resto aquele bairro não era conhecido pela boa cobertura de net, nem pelas boas ligações…

A dúvida, cada vez mais instalada no sofá da minha salinha interior, traçava a perna. Parecia decidida a ficar. Quando regressei desanimada ao hostel, os rapazes já lá estavam todos. Foi quando percebi que eu era A única.

Empatia e A-himsa

Ocupavam as 2 cozinhas no seu afã de fazer o jantar constituído por comida rápida: faziam noodles e coisas que se comem sem talher, permanecendo em silêncio entre si.

Quando entrei pela porta que dava directamente para a sala de jantar e cozinhas, parei ali um instante, de frente: todos pararam para me olhar no mesmo momento, como se eu fosse um animal raríssimo para o qual não se pode olhar durante muito tempo sem pagar bilhete.

Depois regressaram aos seus cozinhados falsamente elaborados, poderia até parecer que tinham estado a falar entre si e que a conversa tinha sido interrompida, mas não.

Agora o barulho dos tachos a bater no fogão ouvia-se melhor.
Não me consigo recordar se alguém me cumprimentou.
Sei que não fui convidada para a mesa comunal.

Pisguei-me rapidamente para o quarto, sem jantar, para dormir/ler/outra coisa qualquer inbetween.

No inbetween lembrei-me de como tinha iniciado esse dia:
peito de pomba, perfeito e alto, do mais alto possível. A convicção de ter entrado em contacto directo com “O Supremo”, algo mais elevado que eu propriamente dita, e a garantia da invencibilidade no bolso, conjuntamente com a BG. Tudo só podia correr absolutamente bem.

Via-me agora longas horas depois, no final do dia, e ainda no inbetween, ocorria-me o personagem da Bhagavad Guita:

Arjuna, o célebre e valente Guerreiro, depositado na frente do campo de batalha, assolado pela dúvida e pelas vicissitudes, prostrado, eis que depõe as armas e baixa os braços, incapaz. Em desespero, vira-se então para o Sr. Krishna.

Eu acabei por virar-me para o lado.
Viro-me sempre para o lado porque durmo melhor assim.
É o esquerdo.
Felizmente, há sempre um dia seguinte por inaugurar.

De manhã o Sol brilhava resplandecentemente. Saí para a rua, passando de raspão pela mesa onde todos cabiam e tomavam o pequeno-almoço diariamente servido pela Moça peruana. A mesa albergava cerca de 12 pessoas e tinha o meu lugar posto.

Com o tempo comecei a habituar-me a esse momento alto do dia, em que vinha da 1ª de yoga aula quotidiana, à beira-mar com Vicky, a Prof. venezuelana.

Eles perguntavam-me como tinha sido, curiosos acerca de tudo no yoga, falavam das expectativas para o seu dia no mar, das ondas e do vento, e convivíamos todos antes de os Rapazes irem para o dia de surf/windsurf.

Todas as histórias são como as histórias antigas…há sempre a vontade de ser feliz e da realização. Ah, e claro, o Amor e, às vezes, não poucas, o abandono.

Ao segundo dia encontrei a escola de yoga, que frequentei durante todo o tempo. Nessa altura estava no segundo ano de um curso de yoga e achava que aulas diversificadas me poderiam enriquecer muito.

Por rotina começava o dia com prática, ao nascer do sol à beira-mar, depois ia com Sally, a Dinamarquesa que era dedicada ao Ayurveda também, e mais à tarde com Anne, a poderosa austríaca do Power yoga. Entre as aulas caminhava à beira-mar, apanhava banhos de sol, lia no terraço.

Aos poucos os Rapazes foram saindo da concha do seu silêncio até, gradativamente me transformarem na sua confidente. Todas as histórias são como as histórias antigas…há sempre a vontade de ser feliz e da realização. Ah, e claro, o Amor e, às vezes, não poucas, o abandono.

Como quase todos estavam ali a praticar surf, acabaram por me levar consigo a aprender e vieram fazer aulas de yoga comigo. Já partilhávamos muito.
Desenvolvemos empatia, e descobrimos que esse é o terreno em que cresce a-himsa.

A Bhagavad Guita tornava-se palpável no nosso quotidiano através desse conceito: a-himsa.

Bem…
Excepto para Stefano.

Stefano era o septuagenário, italiano, com o qual sempre fomos afectuosos, mas ele tinha um problema. Ressonava. E quando o fazia as paredes de todo o edifício colaboravam com ele até ao terraço, vibrando em uníssono, tal era a força pulmonar do homem.

Stefano, ressonava como se estivesse a ensaiar para a ópera todas as noites, em barítono maior. E as pranchas de surf alinhadas nas traseiras a secar, reverberavam alegremente.

Aquilo não dava para aguentar. Não encontrei a-himsa descrita em nenhuma tradução credível face a este tipo de fenómeno. Eu bem tentava dar uma de entendida, mas um dia cheguei para o pequeno-almoço e Stefano, o septuagenário, já não estava lá.

Os Rapazes pouparam-me aos pormenores, mas acho que conseguiram pô-lo a mexer….
Talvez para compreender verdadeiramente a-himsa tenhamos que perceber não a-himsa (himsa).

Desapegos e partida

Depois chegou o dia.
Desde que o autocarro me havia levado a Corralejo, tinham passado 3 luas e meia. Era quase Natal e estava na altura de partir.
Durante essas luas vários ensinamentos da Bhagavad Guita de acordo com Gandhi foram-se entranhando enquanto vivia ao ritmos das cores e dos sons:

  • O azul do mar e da porta do hostel.
  • O branco do meu tapete de yoga.
  • E as cores do céu de dia e de noite.
  • O arrulhar das ondas.
  • Os sininhos do início e fim das aulas.
  • O ressonar do Stefano.

Despedi-me dos Rapazes. Os que ainda permaneciam no hostel vieram, à vez, com a chávena de café na mão, dar-me um abraço à porta.

Desapegamo-nos.
Coloquei a Bhagavad Guita na mochila e regressei.
Com vagar.

14 comentários para “Crónicas do Vagar – Yoga, desapego e a-himsa”

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  1. Luísa Gil says: 2019/07/23 at 21:24

    Obrigada, Amália, pela partilha e pelo sentido de humor com que ilustras esta experiência pessoal. Fico (tranquila e desapegadamente) à espera do 2o episódio das Crónicas do Vagar! ?

    • Com vagar li a tua crónica.E com apego apreciei.
      Mochilas, livros, viagens. Pessoas, locais, coisas simples, desapegos, alegrias, olhares. Vida!
      Gostei Muito!Boa Estreia.

    • Amália Rosa says: 2019/07/25 at 21:53

      Olá Luísa,
      Tranquilo…
      Outros episódios houve, hão-de surgir por aqui em Crónica um dia destes e esperamos que agradem igualmente.
      Obrigada pelo comentário e pela leitura,
      Beijinho

  2. Adorei esta aventura! Tal como a tua amiga Luísa, fico ansiosamente aguardando o relato de uma nova aventura! E tens muito jeito para a escrita miúda

  3. Graça Fosco says: 2019/07/24 at 22:08

    Obrigada Amália. Com estilo e humor na senda do Yoga. Eu também vou ficar atenta ao 2º Capítulo. Abraços.

  4. Shibanga says: 2019/07/25 at 19:50

    Adorei!-Gosto da forma como (des)escreves o acontecido.
    Acho que descobrimos um novo Bill Bryson de belas crônicas de viagem, e claro…associadas à sabedoria do desapego de Gandhi e de Guita.
    Obrigado ?

    • Amália Rosa says: 2019/09/04 at 21:04

      A próxima crónica esta “no forno” e é sobre a Guita, precisamente. Shibanga, tem dotes adivinhatórios ☺

  5. Luisa Maria Lázaro says: 2019/07/31 at 13:17

    Adorei…o desapego, o despretensiosismo, as viagens, as reflexões e claro GHANDI. Beijos Amália e continua com esse desapego maravilhoso.

  6. Amália Rosa says: 2019/09/04 at 21:05

    Luísa,
    obrigada!
    subscreve a página e recebes a próxima crónica que está a ser cozinhada ?.
    Obrigada!

  7. Amália Rosa says: 2019/09/04 at 21:07

    A próxima crónica esta “no forno” e é sobre a Guita, precisamente. Shibanga, tem dotes adivinhatórios ☺

  8. Paula Paquim says: 2019/09/06 at 08:11

    Obrigada pela partilha Amalia. Adorei . A tua escrita estilo crônica de viagem é de ler e ficar à espera de mais. Visualizei a tua viagem e o local e senti a tua paz . Obrigada e fico a espera de mais …

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