A DOR: reflexões sobre – Sérgio Ramos

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sergio_ashtanga_dorA dor é um tema que tido vontade de escrever sobre há já algum tempo.

Tenho vindo a tentar juntar algumas ideias sobre o tema, a experiência, as histórias partilhadas e o que testemunho, para agora tentar transmitir algo de relevante para todos nós, senão, apenas para comigo mesmo.

Este processo é no entanto incrívelmente desafiante e é também por esse motivo que me tenho aproximado desta vontade de reflectir e escrever sobre a Dor, e espero que se torne evidente, nos primeiros instantes do texto que se segue, a razão de tal dificuldade.

A sensação física e emocional de dor traduz-se muitas vezes, principalmente quando uma dor é nova, em uma agonia deseperante. Perante esta sensação reagimos com aversão.

Fugimos e tentamos nos tornar distantes desta sensação que nos preenche a mente e perturba o corpo. No entanto, eu sinto que o quanto mais fugimos e nos afastamos, mais esta sensação nos vem rodear e presseguir como se servisse da nossa aversão apática para se espalhar.

Não acredito que a dor se sirva desta reação apática para se expandir, antes acredito que nós ao dispensarmos esta sensação e conferimos a esta sensação uma etiqueta de “indesejada”, “não apreciada”, a deixamos no corpo, na mente e no espírito como um lixo tóxico e assim inadvertidamente não procuramos a sua intenção e propósito e, num sentido lato, a forma de a usar, reciclar e reduzir.

Mas não é da dor que fugimos realmente, mas do que a causa. A dor é uma sensação que nos avisa e antecipa piores efeitos da sua possível causa.

É claro que fugimos e dispensamos a dor que sentimos, como automatismo mecânico. Mas não é da dor que fugimos realmente, mas do que a causa. A dor é uma sensação que nos avisa e antecipa piores efeitos da sua possível causa. Mas é no momento da dor que temos de agir, não a dispensar e mover-nos em comunicação com ela.

Num exemplo grosseiro: se estamos com a água quente a correr sobre a nossa mão, poucos momentos antes de a água começar a ferver e começar a danificar os tecidos da nossa pele sentimos um dor imensa, que será suficiente para nos fazer automaticamente mover a mão para fora da água a correr.

Neste caso, o nosso subconsciente toma a reação saudável de evitar o pior. Noutros casos de dores induzidas ou mais crônicas acredito que o trabalho tem ser feito a um nível mais consciente.

Sejam dores internas, externas, emocionais ou físicas, de dias ou semanas ou meses ou mais, tem que haver um trabalho de descobrir a forma em que criamos subconscientemente padrões para evitar a dor.

Podendo as estratégias presentes de fugir das causas da dor ser vícios clínicos, alimentares, emocionais, comportamentais, etc… Trazeriamos assim à superficie do nosso consciente tais padrões comportamentais para nos ajudar a avançar, identificando e realmente ultrapassar as reincidentes dores.

Não digo que devemos de imediato abolir tais vícios que nos tornam dormentes da verdadeira cura, (ou secalhar estou) mas sim pelo menos saber e descobrir como nos servem a longo prazo.

Sentimos aversão e nos criamos distantes desta sensação agoniante. Criamos uma rotina de escape.

Mas talvez esta sensação que sentimos, que nos impossibilita de desfrutar da vida seja a chave que nos vai permitir voltar a desfrutar a vida, a um maior potencial.

Claro que é natural não querermos atrair a dor, mas quando a temos, talvez não fugindo, encontramos um limite para pararmos. Paramos. E no devido tempo voltamos e redescobrirmos o nosso caminho novamente, restaurados, mais fortes e resilientes.

Eu estou de acordo com o verso dos Yoga Sutras de Patanjali que abordando a prática de asanas se refere à dor: 2:16 Heyam Durham Anagatam, traduzindo, a dor que virá é para ser evitada.

A dor não é para ser promovida, não é para ser procurada, não é para ser extendida para o futuro. Tem a sua importância no presente. Quando a encontramos ou nos encontramos com dor, tão dificil como é descarta-lá, pode ter um serviço de equivalente importância .

E talvez será a dor do presente um aviso para evitar a dor no futuro. E nosso corpo, mente e espírito ficará mais forte, resistente, imune e conhecedor. Sim, conhece a tua dor!

Muitas dores surgem porque queremos alcançar um ideal que projetamos para o futuro, agora.

Eu convido a conhecer a dor, a nossa e a dos outros até. Assim teremos mais compreensão das suas causas, com raiz no passado, e consequências para aquilo que hoje somos. Praticamos compaixão com a mágoa, a ferida e com o sujeito que está intimamente ligado à sensação.

Muitas dores surgem porque queremos alcançar um ideal que projetamos para o futuro, agora. Escapando o presente, por vezes cobertos de mágoas que necessitam de reflexão, ou outras causas com raizes no nosso passado distante ou próximo.

São projeções sobre nós (alimentadas por nós, seja qual for a sua fonte) que decidimos tentar escapar, saltar desse momento de necessária aceitação de estar presente com o nosso estado e assim permitir que a dor se instale.

Geralmente acontece após um evento infortúnio, perpetuando-se.

Como se num acto precipitado um corredor, que corre em direção a um obstáculo a saltar, se precipita e antes de estar no alcance correto, num timing errado, se impulsiona colocando mal o seu pé no piso.

O sujeito magoa o seu tornozelo e cai contra o obstáculo, parando de imediato. Por querer estar para lá do obstáculo, no futuro. No presente o sujeito precipita-se. E ao invés de estar descansado do outro lado do obstáculo, caiu magoado deste lado.

Sei que todos temos acidentes e quedas na vida. Assim aprendemos e evoluímos, chorando ou não todos caímos magoados uma vez ou outra. Basta pensarmos de nós em criança.

Mas é por nos apercebermos destas questões que evoluímos para lá dos nossos obstáculos, mesmo que subconscientemente, ou em outro nível. É através de uma ligação empática que descobrimos na Dor a sua ferramenta e função nas nossas vidas.

Por isso aconselho, na medida do possível, não fugir e não anestesiar a dor.

Em muitos casos, e especialmente quando a dor é recente, parece que vem de todas as direções e torna-se difícil saber de onde parte esta dor. A dor é nova e não familiar e parece que é maior que nós.

Assim generalizamos a dor e não a conseguimos localizar em um ponto, para daí partirmos a tratar o pânico de sensações do corpo e trabalhar na sua origem. Com discernimento podemos procurar especificar a sua localização.

Um par de respirações profundas e trazer a mente ao presente pode ser suficiente para encontrar o ponto que mais necessita de atenção, empatia e de energia de um modo consciente.

O que parecia ser uma dor imensa no tornozelo inteiro reduz-se a um ponto, a uns ligamentos rasgados por exemplo, e assim muito mais fácil de lidar e de ter em conta.

Uma vez que li “A Décima Revelação”, de James Redfield, algo que antes tinha pensado ajudar a compreender a origem e a causa da dor veio se a confirmar.

Tratava-se de descobrir quais os pensamentos que corriam na nossa mente no momento antes do acidente.

Num excerto do livro o protagonista magoa-se e a personagem que veio a seu auxílio pede-lhe para localizar o ponto e especificar, para si mesmo, o local da dor. E depois pede-lhe para reflectir e descobrir o que corria no seu pensamento no momento exactamente antes de acidente.

Claro que só após um esforço que ver além da nébula frenética de pensamentos e de sensações traumáticas físico-emocionais que qualquer acidente pode ter, o protagonista pode identificar a causa e razão de tal acidente, de tal dor.

Tornando-se consciente da causa, os protagonistas desta cena que é a nossa vida podem vir a curar hábitos nefastos, perdoar e resolver conflitos no passado e evitar acidentes no futuro.

Contudo esta reflexão e teoria sobre a dor serve para nos guiar.

E na prática resta nos apenas perguntar e responder com confiança, honestidade positiva e com caráter de explorador: se é grave? se vou melhorar? se está aqui para me guiar, e para onde? para me curar?… e ouvir, cuidadosamente, a Dor falar.

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